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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Bogotá e as emoções à flor da pele

Jetlag, comida de avião, noites mal dormidas num Hostel barulhento (e sujo), vertigens, comida estranha, muitas cores no meio de muita escuridão.
O estômago emaranhado e uma bola no estômago.

Chegámos cansadíssimos a Bogotá, depois de um voo de Paris de 11:30 (onze horas e meia!!!!). Nem queríamos acreditar que tudo estava a correr bem - sem atrasos nos voos, sem malas extraviadas. Descobrimos a Uber logo à chegada e desde então nunca nos desiludiu. Andamos para todo o lado nos carros particulares dos colombianos que nos recolhem, a preços muito mais económicos do que os dos táxis e com a certeza de que eles nos vão buscar onde estamos e nos deixam no destino certo.

Dormimos no centro da cidade, La Candelaria. À primeira impressão, vemos muitas cores a tentar esconder a enorme pobreza da cidade. Casebres coloridos, bares cobertos com grafitis, bailes carnavalescos pelas ruas, autocarros do tamanho do metro de Lisboa.
 
Estamos na rua a olhar para o mapa, quando aparece o Jorge, el Matador. Aí percebemos que nem todos os malucos que deambulam pela rua são corpos amorfos resultantes dos efeitos nefastos da droga. Jorge sabe tudo sobre Portugal. As touradas, os lusitanos, o Alentejo, o fado. Porém, no dia seguinte quando nos encontramos novamente, ele pergunta-me como estou. Acho que me reconhece e sorrio para ele, respondo quando nos vamos embora e ele pergunta: Americana?
Ele leva-nos para a Plaza Bolivar onde, no meio dos pombos, encontramos um trio de portuguesas que, após a nossa resposta à pergunta que língua hablan, nos respondem nosotras tambiem (mais tarde um outro português tenta iniciar uma pequena amizade no Museu Militar exactamente da mesma maneira, hablando espanol...).
Vamos com elas ao posto de apoio ao turista, mesmo ali na praça e às 10 da manhã (já nós andávamos na rua há duas horas, porque o despertador são as noites mal dormidas) fazemos um tour guiado pelo bairro. Que é o mesmo que dizer que damos a volta ao quarteirão em duas horas e meia. Exaustos e famintos sentamo-nos no primeiro restaurante da rua para provar as iguarias de Bogotá. Agora já posso dizer que continuo a preferir as bananas esmigalhadas dentro do pão).



A sopa de frango e grão é o famoso Ajiaco santafareño, que se come com arroz branco e abacate (?). O outro prato é Tamal, um arroz (também de frango, neste caso) dentro de casca de banana. Com toucinho - ou seja, quando soube, nem comi mais...

Depois de almoço, deambulamos pelo bairro - visitamos o Museu Botero, e descansamos num café na Calle del Divorcio.
Enfrentamos a superstição (vamos la ver como corre este casamento), porque antigamente quando as mulheres eram infiéis os maridos daqui podiam matá-las ou mandar prendê-las. A prisão era mesmo ali, naquela rua. Assim nasceu a lenda de que qualquer mulher casada que passe ali pode acabar divorciada. 



Esse café, que fica do lado esquerdo de quem desce a rua, é uma escola de Baristas e ensinam todas as formas de se fazer um café colombiano. Nós bebemos um granizado, a imitar o André e o seu filho de 10 anos, super viajado e bem esperto, uns brasileiros que fizeram o tour connosco. Depois de uma bela conversa, combinamos encontrar-nos no Cerro de Montserrat e cada quais vagueiam, até lá, um pouco mais pela cidade. 
Ai, mas ninguém me avisou que pessoas sensíveis não deviam subir a Montserrat (se calhar ninguém, nem mesmo eu própria, me incluiu nesta categoria). Ao início achei muita cool filmar a subida para fazer pirraça e mostrar como somos muita aventureiros. Depois comecei a achar melhor era estar quietinha e por fim fiquei histérica, agarrei-me ao Kico com unhas e dentes e fechei os olhos até ao finzinho daquela maldita viagem. São mil e tal metros sempre a pique. Num teleférico. Na Colômbia.
Quando pisei o chão da montanha e vi a vista esqueci aqueles tormentos. Bom, mais ou menos, porque Montserrat é bem alto. Mas tão alto, que cada espertalhão que subia ao muro para tirar selfies me dava friozinho na barriga.
A vista é inacreditável - uma cidade imensa aos nossos pés. Prédio altos espaçados por superfícies verdes, rodeados de montanhas e cobertos de nuvens. Absolutamente incrível. Ficámos à espera do pôr do sol para ver a cidade iluminada. Ficou tudo ainda melhor. 


A conversa estava boa, a vista melhor ainda mas não dava para adiar mais a descida porque, de repente, caiu a temperatura.
A descida foi muito mais suave - talvez porque estávamos às escuras ou, então, porque já ia preparada.
Aproveitámos a boleia dos brasileiros até ao hotel deles, na zona Rosa e fomos de lá, a pé, até ao Park 93.
Aaaahhhh, afinal Bogotá era isto! Prédios modernos, restaurantes boémios, gente gira, carros bons. Agora o problema era mesmo escolher um sítio para comer que não ultrapassasse o nosso orçamento. Que se lixe!, isto hoje foi para a desgraça e não viemos até à outra ponta da cidade para comer no Subway (se bem que estivemos quase, não fosse o aspecto ressequido dos ingredientes para rechear as sandwiches). 
Depois de descermos as montanhas (e passarmos no prédio onde a Shakira tem casa), andarmos em Chicó e Usaquen, saímos de Bogotá com uma impressão absolutamente diferente. 
Claro que adorámos a esquizofrenia colorida do centro da cidade e vamos embora com pena de não termos captado toda a arte que se espalha pelas ruas, mas do outro lado é que está o conforto. Por isso, inclinando-nos mais para prédios com mais de dois andares, um mercado das pulgas, junto de um moderníssimo centro comercial, Hacienda de Santa Barbara, bons cachorros quentes e batidos verdes, de rabo bem sentadinho nos carros dos ubers, deixamos Bogotá rumo ao valor caribenho.

domingo, 17 de janeiro de 2016

341.

Há quem, estando distraído, escreva riscos e nomes absurdos no mata-borrão de cantos entalados. Estas páginas são os rabiscos da minha inconsciência intelectual de mim. Traço-as numa modorra de me sentir, como um gato ao sol, e releio-as, por vezes, com um vago pasmo tardio, como o de me haver lembrado de uma coisa que sempre esquecera.
Quando escrevo, visito-me solenemente. Tenho salas especiais, recordadas por outrem em interstícios da figuração, onde me deleito analisando o que não sinto, e me examino como a um quadro na sombra.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

339.

(...)
Um dos malefícios de pensar é ver quando se está pensando. Os que pensam com o raciocínio estão distraídos, os que pensam com a emoção estão dormindo, os que pensam com a vontade estão mortos. Eu, porém, penso com a imaginação, e tudo quanto deveria ser em mim ou razão, ou mágoa, ou impulso, se me reduz a qualquer coisa indiferente e distante, como este lago porto entre rochedos onde o último do sol paira desalongadamente.
Porque parei, estremeceram as águas. Porque refleti, o sol recolheu-se. Cerro os olhos lentos e cheios de sono, e não há dentro de mim senão uma região lacustre onde a noite começa a deixar de ser dia num reflexo castanho escuro de águas de onde as algas surgem.
Porque escrevi, nada disse. Minha impressão é que o que existe é sempre em outra região, além de montes, e que há grandes viagens por fazer se tivermos alma com que ter passos.
Cessei, como o sol na minha paisagem. Não fica, do que foi dito ou visto, senão uma noite já fechada, cheia de brilho morto de lagos, numa planície sem patos bravos, morta, fluída, húmida e sinistra.
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Andar sempre à procura de "experiências transcendentes", mais variadas e intensas, é uma forma de fugir da realidade presente, daquilo que é, ou seja, de nós mesmos, da nossa própria mente condicionada. Uma mente desperta, inteligente, livre, que necessidade tem dessas experiências? A luz é luz; não andar à procura de mais luz.

Krishanmurti, Mediatações

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Segredo para a felicidade... mas não contem a ninguém!

Sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos. Difícil, exactamente, porque não envolve esforço. Tentas não ser isto e aquilo, nem grande nem pequeno, nem hábil nem desajeitado... estás a perceber? Fazes o que tem vem à mão. De boa vontade, bien entendu. Porque nada há que não tenha a sua importância. Nada. Em vez de risos e aplausos recebes sorrisos. Pequenos sorrisos de satisfação - e é tudo. Mas é justamente o próprio tudo... mais do que alguém pode pedir. Fazendo o trabalhinho sujo, alivias as pessoas dos seus fardos. Isso torna-as felizes, mas a ti torna-te ainda mais feliz, compreendes? É claro que deves fazê-lo sem ostentação, por assim dizer. Nunca deves mostrar-lhes o prazer que te dá. Se te deixas apanhar, se te descobrem o segredo, estás perdido. Chamar-te-ão egoísta, faças por elas o que fizeres.


Henry Miller, O Sorriso nos Pés da Escada

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

338.

Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de desprendimento em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos outros para os outros, a imaginação da figura que farei fisicamente, e até moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias ou por acaso. Estamos todos habituados a considerar-nos como primordialmente realidades mentais, e aos outros como directamente realidades físicas; vagamente nos consideramos como gente física, para efeitos nos olhos dos outros; vaga- mente consideramos os outros como realidades mentais, mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que os outros têm sobretudo alma, como nós para nós. Perco-me, por isso, às vezes, numa imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me vêem, como é a minha voz, que tipo de figura deixo escrita na memória involuntária dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia. Não consegui nunca ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. Era precisa outra alma, outra colocação do olhar e do pensar. Se eu fosse actor prolongado de cinema, ou gravasse em discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria longe de saber o que sou do lado de lá, pois, queira o que queira, grave-se o que de mim se grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos da minha consciência de mim.
     Não sei se os outros serão assim, se a ciência da vida não consistirá essencialmente em ser tão alheio a si mesmo que instintivamente se consegue um alheamento e se pode participar da vida como estranho à consciência; ou se os outros, mais ensimesmados do que eu, não serão de todo a bruteza de não serem senão eles, vivendo exteriormente por aquele milagre pelo qual as abelhas formam sociedades mais organizadas que qualquer nação, e as formigas comunicam entre si com uma fala de antenas mínimas que excede nos resultados a nossa complexa ausência de nos entendermos.
     A geografia da consciência da realidade é de uma grande complexidade de costas, acidentadíssima de montanhas e de lagos. E tudo me parece, se medito de mais, uma espécie de mapa como o do Pays du Tendre ou das Viagens de Gulliver, brincadeira da exactidão inscrita num livro irónico ou fantasista para gáudio de entes superiores, que sabem onde é que as terras são terras.
     Tudo é complexo para quem pensa, e sem dúvida o pensamento o torna mais complexo por volúpia própria. Mas quem pensa tem a necessidade de justificar a sua abdicação com um vasto programa de compreender, exposto, como as razões dos que mentem, com todos os pormenores excessivos que descobrem, com o espalhar da terra, a raiz da mentira.
     Tudo é complexo, ou sou eu que o sou. Mas, de qualquer modo, não importa porque, de qualquer modo, nada importa. Tudo isto, todas estas considerações extraviadas da rua larga, vegeta nos quintais dos deuses exclusos como trepadeiras longe das paredes. E sorrio, na noite em que concluo sem fim estas considerações sem engrenagem, da ironia vital que as faz surgir de uma alma humana, órfã, de antes dos astros, das grandes razões do Destino.

337.

O que tenho sobretudo é cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do cansaço quando este não tem outra razão de ser senão o estar sendo. Tenho um receio íntimo dos gestos a esboçar, uma timidez intelectual das palavras a dizer. Tudo me parece antecipadamente fruste. O insuportável tédio de todas estas caras, alvares de inteligência ou de falta dela, grotescas até à náusea de felizes ou infelizes, horrorosas porque existem, maré separada de coisas vivas que me são alheias...

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

336.


     Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nela. Já este modo de dizer parece querer dizer qualquer outra coisa, e efectivamente a quer dizer. Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta. Não há dificuldade em compreender isto desde que se o tenha visto: uma zebra é impossível para quem não conheça mais que um burro.
     As sensações ajustam-se, dentro de nós, a certos graus e tipos da compreensão delas. Há maneiras de entender que têm maneiras de ser entendidas.
     Há dias em que sobe em mim, como que da terra alheia à cabeça própria, um tédio, uma mágoa, uma angústia de viver que só me não parece insuportável porque de facto a suporto. E um estrangulamento da vida em mim mesmo, um desejo de ser outra pessoa em todos os poros, uma breve notícia do fim.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Socorro, acordem-me

Um sono que não descansa. Sonhos e pesadelos. Locais que se repetem, vezes sem conta. Situações em que me vejo confrontada com os meus maiores medos, angústias e desafios. Coisas sem sentido, na maior parte das vezes. Mas que se tornam tão reais que quase vivo duas vidas em paralelo.
Tento estudar de uma forma ansiosa, para decorar toda a matéria totalmente desconhecida para os testes que tenho que fazer amanhã - subitamente não acabei ainda a escola e tenho provas para prestar. Até a minha escola básica serve de cenário (já lá vão os dias/noites em que chegava descalça ao jardim escola). No entanto, não são raras as vezes em que saio à rua em trajes menores e me tenho de esconder, enrolada numa toalha de banho. Masco uma pastilha elástica que se começa a desfazer na minha boca e quando a tento deitar fora, está colada aos maxilares. Enrolo no dedo, porque já sei que ela custa a sair da minha boca, e puxo, puxo, puxo. E a pastilha elástica não finda.
Uma praia. Não existe. Que eu saiba. Mas já lá fui tantas vezes. A estrada é sempre a mesma. Uma mistura de via rápida com uma nacional, que bifurca num bosque verde, com cascatas naturais, de quem sobe do Pomar das Almas para Santiago. A chegada à cidade é muito íngreme e a estrada perigosa. A cidade é vazia, cinzentona e tem dois cafés na rua. Mas as praias são muitas, com um mar feroz. Uma delas esconde-se atrás de uma rocha muito alta. Todos estão, sentados a conversar, divertidos e descontraídos. E eu com tantas vertigens. Às vezes o mar chega à estrada e nós temos de correr. Mas só eu me preocupo.
Já fui algumas vezes ao Rio de Janeiro - tenho muito medo - as ruas ladeiam o mar. Uma encosta com casas pobres, onde sem perceber porquê vou parar, é verde. Só verde com ruas que sobem e descem. Os autocarros são velhos. Mas a casa onde estou alojada é longe... é lá perto da praia. Numa rua muito perigosa.
Também Lisboa é um mapa de ruas velhas, que sobem e descem. Prédios antigos, ninguém a encher as calçadas. Em Lisboa sinto medo. Quando estaciono o carro longe, vou a correr para minha casa. Perco-me muitas vezes a caminho do prédio. E também ele é muito velho.
Não raro, há problemas no meu verdadeiro prédio. Sobretudo com o elevador. Sobe mais do que é suposto e não pára nos andares todos. Lá fora, nos cafés, as pessoas estão nas esplanadas mas quando grito por ajuda, parecem todos adormecidos. Tento esconder-me nas escadas, na arrecadação. É um mundo isto aqui.
São tantos e tão poucos os cenários. Tantas e sempre as mesmas angústias. Festas cheias de gente que se empurra e não estou vestida para a ocasião. Carros que conduzo deslizam como manteiga. Dormir pode ser tão ou mais cansativo do que estar acordada...

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Subitamente, depois de ler Os Diários de Inverno, entrei numa maratona de Auster.
Porque o livro é de facto uma autobiografia resumida que refere as suas obras, fiquei com curiosidade em ler os livros de que fala. O problema é que eu já os tinha lido.
Sofro desse problema.
Leio muito, vivo os livros, mas quando acabam, acabaram. E dou por mim muitas vezes a não me lembrar de nada do que falava o livro. "muito estranho", dizia-me alguém que não lê. Talvez seja, talvez seja fraca memória, confusão de pensamentos. Às vezes lembro-me de personagens perdidas, de histórias que não faço ideia onde fui buscar.
Mas claro que parece estranho quando alguém me pergunta se já li o livro X e eu já já, mas não me lembro da história.
Será que o melhor será fazer um resumo escrito daquilo que leio, só para me situar? Já tentei fazê-lo mas ainda assim, o que eu gosto mesmo é de ler e reler. Quantos livros eu já li umas 2, 3, 4 ou mesmo 5 vezes? E, muitas vezes, é como se fosse a primeira...
De qualquer forma, e serve-me de registo, Inventar a Solidão (O Livro da Memória) é uma espécie de precedente deste Diários de Inverno, onde P. Auster desvenda alguns segredos da vida familiar (o que lhe custou a boa-fama de alguns membros), tais como o facto de que a sua avó paterna matou o marido. E eis uma breve explicação para o feitio frio do seu pai, com quem nunca se conseguiu relacionar bem. A segunda parte é mais metafórica, mas no fundo retrata a sua relação com Daniel, o seu filho.
A noite do Oráculo é um romance cheio de suspense, que prende do princípio ao fim, no qual, mais uma vez a personagem principal é um escritor. Um escritor em convalescença de uma doença que quase o matou, que recomeça a escrever. Escreve sobre um homem que ia morrendo com uma gárgula que cai do céu (digamos) e decide fugir. Leva consigo um romance escrito por alguém que já morreu - sobre um cego que previa o futuro.
A intriga passa-se quase sempre no presente, na qual o escritor vai tendo alguns problemas pessoais - nomeadamente a mulher começa a agir de forma estranha.
Tudo começa, porque ele compra numa loja de um chinês um caderno português de capa azul...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Fim do Campeonato

Acabou finalmente o campeonato de escrita criativa. Gostei de participar porque me obrigou a escrever. Mesmo que os temas fossem desinteressantes e pouco desafiantes que preferia ter escrito eu mesma com liberdade. E a verdade é que a minha pontuação não foi nada boa. Fiquei em 24º lugar, de 65, com uma pontuação de 438 (o vencedor teve 476).
Não gosto de ser mediana.
E participar num desafio assim fez-me ver que se calhar também não deverá ser a escrita o meu caminho. Dedicar-me a isto por gozo, sim. Publicar...? Só para os íntimos. Achar que escrevo? Não mais. Gosto de fazer as coisas com brio e para isso tenho de ter o dom. Tenho o dom de muita coisa, mas escrever terá sempre de ser apenas um passatempo e uma forma de me libertar. Mas continuará a sê-lo, sempre.


Jornada 10 (42/50 pontos)

"A cama parecia o deserto.”
Desenvolva o enredo usando no máximo 400 palavras.


Para sempre no deserto…
O deserto pode ser aquilo que imaginamos. Seco, quente, árido e duro. E Caio tinha sido esquecido, onde só de noite alguns insectos e répteis conseguiam viver. A humanidade foi posta à prova através de um só homem. Caio. Era real? Ou uma miragem, provocada pela malária da última viagem ao interior Angolano? Sentiu suores frios, calor, náuseas… Deitado no solo, na boca seca o granulado amargo da terra. Coberto da cor acastanhada que o rodeava da esquerda para a direita, debaixo para cima. O céu como limite. O horizonte infinito. Tentou falar, mas falhara-lhe a voz. As pernas tremiam-lhe, quando se tentava erguer. A miragem como nos contos de Ali Baba. Um oásis feito de água cristalina e esverdeadas palmeiras. Que não passava disso mesmo. Uma miragem. Cuidadosamente, chegou à mala, bebeu dois tragos de uma água chalada e aguardou. Um milagre. Um anjo. Deus. Caio não tinha solução.
O que se passou depois, Caio não se conseguia lembrar. O hospital era o deserto. As paredes brancas transformaram-se em dunas arenosas. O ar resfriado sabia-lhe a nortada sobreaquecida. Miragens. Devaneios. Alucinações. Nos dentes o granulado da areia. Quarenta e seis graus. O suor a escorrer-lhe pelo corpo. A mente parada. Um deserto. Sem pensamentos. Sem recursos. Sem pessoas. Sem salvação. Sem lembranças. Caio nunca seria capaz de reproduzir a aventura. Fora pelo cheiro da adrenalina que começara a viajar, sem nunca conseguir parar. E agora, a mais desafiante das suas viagens caía no limbo do esquecimento. Sem testemunhas. Sem frutos. Encontrava-se sozinho, sem nada que não a roupa que tinha no corpo e uma mente confusa. Sem expressão no rosto, sem voz no olhar. A pele curtida do tempo que passara no deserto. E agora a cama parecia o deserto.
Na cama do lado Su. Cuja vida era igualmente um deserto. Sem sonhos, sem objectivos, sem emoções. Viver rodeada de tudo, sem ter nada. 
Sem sorrirem, olharam um para o outro. Através de dois olhares vítreos. Num quarto vazio, onde mais nada restava se não o primeiro dia das suas vidas.

Jornada 9 (43/50 pontos)

Escreva o primeiro capítulo de um romance com o título:
“Amanhã foi tarde demais”.
 
I. R. no fim do mundo

Conheci Robert, num bar da Madison Avenue com a 84th Street. Um cenário tipicamente nova-iorquino: barulhento, quente, aconchegante, lotado, em tons de encarnado. Escuro. Senti-o como um pilar, naquele fim de tarde. Acabara de começar o meu novo trabalho de secretária na agência de moda Fashion Inc. Era desajeitada, vivia nervosa. Deixava constantemente cair as pilhas de papel, tropeçava nas mesas e cadeiras, cestos de lixo e todos os acessórios de escritório, espalhados e amontoados pelo corredor. Fazia um estrondo constante e era alvo de olhares condenadores. 
Saí do banco. Era já tarde. Estava cansado. Confuso. Nervoso. Perdido no meio de toda a multidão que corria pelas ruas. Entrei num bar de esquina. Vi-a, num belo vestido cintado, em tons arroxeados. Um rosto, um rasgo de frescura, uma réstia de esperança. Uma mulher de lábios rosa. Rosie. 
Estava habituada aos olhares dos homens. No fundo sabia que, apesar de atabalhoada, era uma mulher sensual. Pouco ou nada me importava. Acabada de chegar, emancipada. Sem vontade de assumir grandes compromissos. Concentrada no trabalho. E na minha ascensão. A mulher de sucesso. 
Senti-a altiva. Contudo, prendida à minha companhia. Conversámos sobre tudo e sobre nada. Livros, lazeres, labores e outros prazeres e desamores. Conversa ligeira, em tom de lengalenga. Trouxe-me de volta à terra, ao pensar. Nutri paixão. Paixão pela vida, pela língua, pelas mulheres. Por mim e pela vida.

Observando-os, do outro canto do bar, sentados ao balcão, sob uma esbranquiçada nuvem de fumo, não se diria que era o seu primeiro encontro. Costuma dizer-se que nesta cidade não há acasos. O casal demonstrava inteira empatia e descontracção. Sonoras gargalhadas saiam por entre os caracóis compridos de Rosie, que não se demonstrou intimidada com o toque suave da mão de Robert.
Lá fora a chuva começara a cair, lentamente, desabando numa forte trovoada. Fazia-se tarde e Rosie não podia fracassar no dia seguinte, pelo que decidiu ir para casa. Robert transportou-a debaixo da sua gabardine cinzenta até ao primeiro táxi que apareceu.
Vivia nos subúrbios mas não quis demonstrar a um homem tão charmoso que não tinha maneira de pagar o transporte mais prático e rápido até casa. Assim, dois quarteirões mais tarde, pediu ao motorista: - Largue-me na próxima boca de metro, por favor. Desceu as escadas em passo de corrida e esbarrou contra um transeunte. Era Robert, que caminhava lestamente, sem vontade de regressar para perto de Francine.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Jornada 8 (45/50 pontos)

Desafio: Escreva um texto que comece e termine com a palavra "sempre"



Para sempre, um verão quente

Sempre que te via, no corredor do liceu, imaginava-me a falar contigo. A ensinar-te literatura, a falar-te de cinema. A levar-te a comer em bons restaurantes. A dar-te a mão, sob um céu estrelado, nós dois, deitados na relva fresca de uma noite de verão. Imaginei o teu colo quente, a receber-me. A mesma dedicação que empenhavas nas lições de inglês, à minha conversa fiada. De noite, adormecido agarrado à almofada, imaginava a tua voz dirigida a mim. O teu sorriso a penetrar-me. Sonhava contigo, a mesma cara e o mesmo corpo, sem marcas da idade, a caminhar para mim, que te aguardava no altar. A mesma mulher que ia dar à luz os filhos com que eu, ainda tão novo, já me imaginava. Cresci nesta ilusão, de te ter. Saía com outras amigas, levava-as ao Cineclube do bairro. Comíamos pipocas. Só que eu não as conseguia saborear. As pipocas e os beijos leves que recebia. Era contigo que eu queria estar, era a ti que eu queria beijar. Via-te sempre tão altiva e tão doce, menina-mulher, de tão grandes contrastes. Parecias reparar em toda a gente e em ninguém. Certamente, nunca em mim. E parecia que só aos teus olhos eu era invisível. Sempre invisível. Nunca tive coragem de me aproximar. O ano lectivo terminou, afastando-nos. Já não havia a escola, como pretexto de te ter. Passava todos os dias do verão buscando-te com a visão, nas tardes quentes em que todos nos reuníamos junto ao lago. Nunca apareceste. Tentava, em vão, escutar as conversas das tuas colegas, saber de ti. Sempre que me preparava para perguntar se não vinhas, a coragem falhava-me. E não sabia nunca se aparecerias. Esperava-te sempre e tu não vinhas, nunca.
Lembro-me do dia em que soube, que não serias minha nunca. Uma fatalidade pusera um ponto final à minha fábula. Era Agosto, mas cheirava a terra molhada e o teu irmão chegou ao alpendre da minha casa, escorrendo água pela face abaixo. As gotas de uma chuva veraneia misturavam-se com as lágrimas de portador de más notícias. E aí eu soube. Que te foras para sempre.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Jornada 7 (43/50 pontos)

Desafio:
Escreva um texto que comece e termine com a palavra “nunca”.



O nunca é agora

Nunca valorizara a vida. Sempre idealizara que iria crescer rápido, casar, criar família. E crescemos rápido, mas tão rápido. Passava os dias a fazer serão, engravatado, entre o escritório que partilhava com outros cem como ele e um bar ao final da rua, onde gostava de ir beber um gin tónico antes de ir para casa, beijar os dois filhos e abraçar a mulher, já há muito adormecidos. De manhã, engolia vorazmente o pequeno-almoço já preparado e iniciava um novo dia. O fim-de-semana, aproveitava-o para caçadas com amigos de longa data, ou fechava-se na biblioteca a ler os clássicos. Conquistara tudo o que lhe parecia possível – um bom cargo na empresa, uma família e uma boa casa, um carro e uma hipoteca quase paga. Nunca se questionara se estagnara, negara outras possibilidades ou regredira nos seus sonhos. Para ele, era aquilo. E isso bastava-lhe. Até àquele dia, o maior desgosto que sentira na vida fora uma derrota numa competição equestre. Não poderia imaginar o que era sentir a verdadeira angústia, sofrimento ou dor. Pensara sempre que exageravam. Não lhe faltara nada, por muito que às vezes se sentisse vazio. Não se dava ao luxo de se questionar.
Nesse dia percebeu. Não iria perpetuar-se se continuasse a ser o homem-máquina, no mundo cinzento em que estava inserido. E no dia em que morresse apagar-se-ia a sua existência. Ninguém se lembraria dele, pelo que fora e pelo que fizera. O que levava ele desta vida? Não conhecera, não explorara, não ouvira nem falara. Não experimentara cheiros, sabores ou sensações arrojadas. No fundo, não era mais que uma marioneta, nas mãos dos grandes. Naquele fim de tarde, por entre os carros pretos que circulavam de forma caótica à sua volta percebeu. Não queria desperdiçar a sua vida. Os filhos iam crescendo, a sociedade ia mudando e ele não estava atento nunca.
 

terça-feira, 16 de julho de 2013

Jornada 6 (45/60 pontos)

Eis o desafio desta semana:


Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.”


Escreva a história que pode estar por detrás deste poema de Herberto Helder.

(máximo: 400 palavras)




As folhas da melancolia arrefecem


Já é tempo de pôr um ponto final a isto.
O fogo que me percorreu o corpo, a primeira vez que te vi a passar airosa com o teu vestido esverdeado estampado e esvoaçante, vem devorando pedaço a pedaço do meu ser. Adormeço com os teus olhos a acariciarem-me a alma e acordo coberto de suores frios com medo de chamar por ti noite dentro. Sinto o cheiro fresco da tua pele queimada em cada inspiração, perco lembranças em cada expiração que tento evitar. Escuto o teu calmo respirar junto ao meu ouvido, danço ao som da tua voz fogosa que me embala em cada dia. Paro a pensar. Só te vejo. Só te sinto. Só te amo.
O estrilho do telefone desadormece-me deste torpor. “Vais buscar os miúdos à escola? O que queres para jantar? Pagaste as contas a tempo?” Lacrimejo. Suspiro por não poder continuar a sonhar. Demasiado fraco para abdicar. Extremamente forte para relutar. Pego nos papéis que tenho na secretária, é tempo de aterrar.
 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Jornada 5 (45/60 pontos)

Desafio: Escreva o discurso de perdão do Diabo para o mundo. 



O Inferno não é para todos


Pego do Inferno. Tavira. Três da tarde, quarenta graus à sombra. Olho para a água e vejo uma garrafa de vidro a boiar. Agarro-a e tiro de lá a carta escrita a encarnado-sangue. Só pode ter vindo do fundo da lagoa. Será que é verdadeira a lenda? Foi alguém do inferno? Tremendo, inicio a leitura, entre dentes que batem.
Caros habitantes terrenos, presumo que se questionem diariamente porquê. Deve ser duro, sobretudo para os que sempre foram habituados a ter tudo do bom e do melhor. Aquilo que o imaginário de Hollywood sugeriu como o fim do mundo na Terra, revela-se perigosamente mais brando. As mudanças ocorrem, mas camufladas. Já olharam à vossa volta e viram as pessoas a tornarem-se miseráveis, sem dinheiro para comprar o que precisam? A cortar no essencial para poder mostrar o supérfluo? O ambiente a mudar – verões extremamente quentes, invernos verdadeiramente frios. À vossa volta, amigos e familiares caem, um a um, com doenças demasiado familiares, como um vírus que vos vai aniquilando. E vocês o que fazem? Tentam culpar alguém. Os que ainda me culpam são poucos, porque a fé abandona-vos. Gostava de vos pedir desculpas. Desculpem não vos poder aceitar a todos cá em baixo. Sei que seria bom poderem repousar, depois da dura batalha urbana que têm vindo a enfrentar, numa espécie de país tropical. A beber umas margaritas e a fazer sauna. Temos chuveiros refrescantes. Nem tudo é fogo quente. Desculpem. Porém, a verdade é que todos vocês pecaram. Uns mais que outros, mas todos romperam as regras socialmente estabelecidas e, sobretudo, todos vocês com a consciência de que o faziam. Temos pois que fazer uma triagem, apenas aceitando aqueles que agiram de forma a prejudicar fortemente os outros, aqueles que tornaram a vida da maioria numa vida mais difícil, aqueles que vos roubaram para viver com milhões, enquanto grande parte contava os tostões. Todos os outros, irão entediar-se para o limbo entre a vida e a morte. Desculpem.
Diabo.
Acabei de ler e grunhi o valente filho da mãe. Não há explicação. Os maus vencem sempre? Esfreguei os olhos e, lentamente, abri-os. À minha volta, famílias brincavam na Natureza. Eu… tinha as mãos vazias. Levantei-me e atirei-me de cabeça.